segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Morte, luto e como tratar esse tema com crianças.

A morte é um fato irrevogável que suscita nossa imaginação e nossa atenção, esse é um tema dos mais evitados pelas pessoas, pois existe uma grande dificuldade em lidar com a condição finita. O processo de luto é necessário e fundamental quando acontece qualquer perda significativa e existe também o luto antecipatório que acontece a partir do diagnostico de uma doença.

Após toda perda inicia-se o luto com a tendência de querer ter controle da morte e assim nos deparamos com o descontrole da nossa vida.

Morte é o processo biológico mais marcante pelo qual passamos, causa sentimentos ambivalentes e é uma experiência única para cada indivíduo.

Aceitar a morte não é fácil, pois se trata de uma jornada relacionada ao desapego e nessa caminhada estão presentes também os sentimentos de alívio, raiva, culpa, dor aguda e ansiedade que são expressadas, no ato de chorar. Muitas vezes o enlutado sente a necessidade de voltar ao local do objeto perdido para se auto
afirmar, culpa-se a si próprio, culpa-se ao médico e tende a viver em busca de explicações. (Colin M. Parkes - 1998 - Psiquiatra).

Existem cinco estágios no processo de luto: ·        
Negação: Em que a pessoa evita entrar em contato com o problema (Negar a perda oferece uma zona de conforto);·        
Raiva: Em que a pessoa sente revolta e não se conforma por estar passando pela situação;    
Barganha: Em que começa uma negociação consigo próprio e a pessoa passa a fazer planos de mudança de hábitos;      
Depressão: Em que a pessoa se fecha e se isola em seu mundo interno;        
Aceitação: Em que a realidade passa a ser enfrentada .

Não necessariamente o enlutado irá passar pelos cinco estágios, alguns ficam estagnados em uma das fases.

É comum ouvir relatos em consultório de que o enlutado sonha com aquele que morreu ou com o emprego que perdeu, com o relacionamento que terminou, muitas vezes escuta a voz da pessoa perdida, tem a sensação da presença (O que é reconfortante até que a realidade se faça presente e seja substituída pela dor e frustração). Muitos enlutados, mantém por um tempo os hábitos cotidianos que se tinha antes com a pessoa que perdeu e esse movimento vai se modificando na medida em que o apego vai sendo trabalhado.  A significação da
morte vai mudando de acordo com o amadurecimento emocional de cada um.

Muitas pessoas tem a fé fortalecida após uma perda significativa, pois o enlutado percebe que precisa enfrentar a inevitabilidade de continuar sua vida sem o outro . Com o sofrimento a pessoa passa a buscar por novos sentidos e se reorganizar em seu cotidiano.

Na nossa sociedade a morte é assimilada como um fracasso (É o monstro que absorve a criança, sugando-a novamente depois de tê-la feito nascer, vive-se a espera -Cf. Jung, 1997 p. 104). Mas a morte nos leva a uma nova forma de existência, um processo de mudança em que faz emergir um lado novo da pessoa que sofreu a
perda, um lado que até então ela desconhecia e muitas vezes o novo surpreende,pois a pessoa pode vir a ter uma postura forte e determinada perante a vida e com esperança.  

Através da morte existe um conceito de individuação e ampliação de consciência, além de emergir também questões existenciais como: De onde viemos? Para onde vamos? Porque precisamos morrer?

Com crianças devemos falar sobre morte de uma maneira simples e natural, sem enganá-las ou fantasiar
como por exemplo, dizendo que quem morreu "virou estrelinha" ou "que desapareceu", pois fobias podem ser geradas a partir de uma explicação não fundamentada.

As crianças normalmente iniciam seu contato com a questão da morte, por exemplo, quando ocorre o fim da
vida de um animal de estimação, ou na aprendizagem sobre o ciclo da flor que floresce, murcha e morre.

Entre 3 e 5 aos a criança acha que a morte é temporária e reversível. Dos 6 aos 9 anos a criança começa a perceber a morte como permanente e nessa idade a morte pode passar a ser representada também como um monstro, um fantasma, provocando medo,angustia e terrores noturnos.  A partir dos 10 anos a morte é vista como parte do ciclo da vida e ato final.

É importante dar espaço para a criança expressar os seus sentimentos e podemos ajudá-la a lidar com o que sente através da partilha de choro, abraços, amor e conversas, pois assim a criança percebe, que pode ser apoiada, receber ajuda e superar até as coisas mais tristes na vida. É válido inclusive, pedir que a criança desenhe o que ela está sentindo.

 A criança precisa saber que nunca estará sozinha e também devemos explicar a ela que a morte do ente querido não tem haver com os nossos sentimentos, caso a criança manifeste o sentimento de culpa.

As crianças podem participar do velório ou enterro, mas não devem ser forçadas a isso.  Os rituais de velório são importantes para que as pessoas vivenciem melhor a despedida. Nossa psique precisa da concretude do fim expresso no corpo estático.

O velório e enterro não traumatizam a criança, o que traumatiza são as atitudes dos adultos, por isso é preciso que os pais e cuidadores elaborem bem os seus próprios conceitos sobre a morte e admitam os seus sentimentos para assim poderem responder melhor as necessidades da criança.

A visão sombria da morte é apreendida culturalmente. No ocidente predomina o medo da morte de tal modo que ela é simbolizada por um carrasco vestido de negro e segurando uma foice. No oriente a morte é considerada como possibilidade de transformação e purificação.

A psicoterapia tem o objetivo de auxiliar o enlutado a se replanejar perante a vida, fazer resignificações, além de acolher e ajudar na restauração da auto confiança.

Vida e morte estão ligadas de forma intrínseca e quanto mais refletimos sobre a morte mais valorizamos a vida.

Jung no texto A Alma e a Morte (1934) equipara a vida ao percurso do sol em seu surgimento no horizonte, chega ao pico, faz a curva descendente e morre (Crescimento,expansão e amadurecimento).



Texto publicado por:  Helen Cristina Sellmer Zeviani

Psicóloga Clínica

Contato: (11) 3446-8110 e (11) 99825-6475



Fonte: Jung, Carl Gustav. A vida simbólica - Petrópolis . Vozes, 1997

A Alma e a Morte, In -A natureza da Psique - Petrópolis, Vozes, 1984

Dra. Maria Cristina M.Guarnieri (Professora do IJEP)



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